Contardo Calligaris

PLAYBOY - Que aspectos da cultura mais nos afetam?

Contardo - A nossa cultura faz parte do pacote de coisas que nos definem. Ela nos fabrica de tal forma que, mesmo que nos tornemos budistas, continuaremos a pensar e a sentir de determinada forma. Nesse sentido, a transmissão cultural é quase genética. Há muitos elementos da nossa cultura que contribuem para definir quem somos. Por exemplo, em nossa cultura não existem diferenças de casta. O que introduz a diferença social é o olhar dos outros. Isso faz com que nos preocupemos com a nossa imagem social. A necessidade de seduzir os outros para obter a aprovação e o reconhecimento é uma grande conseqüência da nossa cultura.

 

PLAYBOY - Quer dizer que nos preocupamos mais com nossa imagem do que com o que realmente somos?

Contardo - Escuta, a melhor maneira de enxergar as pessoas é como cebolas, que têm vários invólucros, mas não têm caroço. Nós não temos caroço, nós somos os invólucros. Não é tirando as roupas e acessórios que encontraremos “quem somos realmente”. Essa é uma reivindicação bastante recorrente no amor, por exemplo. “Você não me ama pelo que sou verdadeiramente. Você me ama porque tenho carro importado e uma casa na praia.” As mulheres têm estas frases: “Você me ama porque sou bonita, não por mim mesma”. Mas o que é “mim mesma”? Quem é você senão a pessoa que fez isso ou aquilo na vida, que acumulou coisas, que é bonita? Mas achamos, equivocadamente, que essas coisas são só superficiais. E essa sensação de que a nossa imagem não representa aquilo que realmente somos se tornou uma grande fonte de sofrimento hoje em dia.

 

PLAYBOY - Você acha que o presidente Lula, por exemplo, sofre porque a imagem atual dele não representa o que ele acredita ser?

Contardo - O governo do PT inventou uma fórmula: a socialdemocracia neoliberal com retórica radical da esperança. Mas o Lula não está mentindo quando adota a retórica radical em seus discursos. Mesmo fazendo um governo eminentemente neoliberal, ele está presente naquela retórica. Desse ponto de vista, ele é uma figura trágica — no melhor sentido. Isso provoca um sofrimento profundo. E não só para ele, mas para todos. Afinal, a vitória do PT fez o cinismo natural do cidadão brasileiro entrar em crise. Aquela idéia profundamente cínica de que “político é tudo a mesma merda e foda-se”. Mesmo quem não votou no PT pensava que, pelo menos, ia dar em algo diferente. Por um breve período, a imagem que tínhamos do Brasil correspondeu ao que gostaríamos que fosse. Com as crises recentes, essa imagem ruiu e o cinismo natural do brasileiro voltou. O que é uma pena. Todos sofremos com isso.

 

PLAYBOY - Como formamos a nossa imagem?

Contardo - Bom, o que nos define não é mais o berço, como era nas sociedades tradicionais, em que marquês nascia marquês, camponês nascia camponês e nenhum dos dois tinha qualquer possibilidade de mudar isso ao longo da vida. Então, temos que nos definir por meio das riquezas e das posses. Em nossa sociedade, as diferenças quantitativas se transformam em qualitativas. O que você tem e o que você pode acabam determinando como você é percebido pelos outros e por você mesmo. Assim, o materialismo é o meio pelo qual construímos nossa imagem e acaba influenciando, também, o que pensamos que realmente somos. Podemos esbravejar contra nosso materialismo, mas é por causa dele que a nossa posição social não é carimbada na nossa bunda ou na nossa cara, não nasce conosco. O materialismo e a imagem que ele nos permite construir para nós mesmos são necessários para se ter uma sociedade como a nossa.

 

PLAYBOY - Como usamos o materialismo para construir nossa imagem?

Contardo - É um movimento circular. Precisamos de elementos que possam nos diferenciar e nos ajudar a construir nossa imagem social. Encontramos esses elementos nos desfiles de moda, na mídia, na publicidade e em milhares de outras experiências. E, aplicando nossa criatividade a esses elementos, construímos imagens para nós mesmos. Essas imagens, por sua vez, realimentam a moda, a mídia e a publicidade. Esse ciclo perdura porque a exigência de ser diferente, o individualismo, é outra grande regra da nossa cultura. Isso se torna uma corrida. Não podemos parar de buscar uma diferenciação.

 

PLAYBOY - De onde vem a exigência de sermos diferentes?

Contardo - O valor supremo da nossa sociedade é o de sermos, cada um, um indivíduo singular. Isso é mais importante para nós do que pertencermos a uma comunidade. É irônico e contraditório, mas a única coisa que vai me dizer que sou um indivíduo e que sou singular é que os outros me reconheçam como tal. Para que me reconheçam, portanto, eu preciso pertencer a um grupo dos que me reconhecem como indivíduo. Se eu pertenço a um grupo, já sou menos individualista do que poderia ser.

 

PLAYBOY - No fundo, então, é o individualismo que causa o sofrimento ao qual você se referiu?

Contardo - Há uma culpa em nosso individualismo. A autonomia é a expressão máxima do ideal de individualismo da nossa sociedade. Mas autonomia exige rebeldia, porque ser autônomo é desobedecer e se afastar da família. Na adolescência, lidamos com a contradição que está no discurso de todos os pais. É um discurso que diz “me obedeça e faça o que eu digo” e, ao mesmo tempo, “seja independente, se torne autônomo” e, portanto, “me desobedeça”. Na vida adulta, a culpa é substituída por algo análogo, que é a nostalgia. Sentimos saudades dos valores da vida comunitária, familiar. Com isso, nos tornamos individualistas com ideais comunitários. Construímos uma imagem singular, mas precisamos que ela seja reconhecida pela comunidade.

 

PLAYBOY - Então, a causa de tudo isso é a busca por reconhecimento. Somos todos como as personagens Darlene e Jaqueline da novela Celebridade?

Contardo - Bom, nem todos temos o corpo de Jaqueline e Darlene [risos]. Mas, em alguma medida, sim. Darlene, claro, é um pouco excessiva e isso a torna irritante. E, se ela nos irrita, é porque nos apresenta algo que existe em nós e que não estamos a fim de ver. Todos temos algo daquilo que anima Jaqueline e Darlene, mas perseguimos nossas ambições de maneiras diferentes. Aparecer em Caras não é o único jeito de ser reconhecido. Há outros caminhos para responder à exigência de encontrar, aos olhos dos outros, algum tipo de aprovação e confirmação de quem somos. No extremo oposto, a pessoa pode tentar ser reconhecida como aquela que não gosta, não quer aparecer em Caras. Há também muitas pessoas cuja identidade intelectual e progressista deriva, em parte, do desprezo por tudo que é considerado cultura popular. Inclusive a novela, que consideram um engodo e uma fonte de alienação das massas.

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Veículo:

Playboy

 

Ediçâo:

No. 347

Pág. 82 - 87

 

Data:

08/2003

Texto por partes

1a Publicação

Entrevista