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Contardo Calligaris |
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PLAYBOY - Mas não precisamos de reconhecimento quando buscamos o próprio prazer. Contardo - Às vezes, sim. Um cara que se olha no espelho enquanto transa, por exemplo, está mais interessado em verificar o que a mulher está vendo e se essa imagem é digna de aprovação do que no próprio prazer. Falar de comida enquanto se come, algo que se tornou muito comum hoje em dia, é uma forma de exibir competências. Saber escolher o vinho para um determinado prato ou reconhecer ingredientes são coisas que fazemos mais para obter aprovação do que para intensificar nosso prazer.
PLAYBOY - Você já disse que sexo e carinho são coisas distintas. Como assim? Contardo - O sexo e o amor não convivem no mesmo momento. A pessoa, sobretudo a mulher, pode precisar se sentir amada para se entregar ao tipo de esculhambação do corpo que o sexo representa, mas isso não significa que essas duas coisas coexistam. Metaforicamente, o sexo despedaça o corpo e o amor o reconstitui. Não tem como ser de outro jeito. O sexo não tem como respeitar o ego do outro. A fantasia sexual não pode colocar o respeito do outro como regra. Se isso acontece, todas as partes começam a achar o sexo tão chato que vão procurar outra pessoa.
PLAYBOY - Mas quando um homem se preocupa com o prazer da mulher não há uma coexistência de amor e sexo? Contardo - Isso é um grande problema masculino, né? [Risos.] Eu acho que é uma questão infeliz se você quer saber. É mais um impedimento do que qualquer outra coisa. Talvez isso faça parte da construção da nossa imagem masculina. Queremos ser aqueles que fazem as mulheres gozarem. E essa preocupação acaba sendo desastrosa para a transa. Se o gozo sexual se resumisse ao orgasmo, era só toda mulher comprar um vibrador.
PLAYBOY - Então o egoísmo é bom para o sexo? Contardo - O egoísmo, em matéria de sexo, não é tão mau assim. O obstáculo a uma boa relação sexual não é tanto uma falta de sintonia física, mas a inibição de cada um com relação às suas fantasias. O que torna o sexo interessante é quando cada parceiro tem a coragem de assumir e realizar suas fantasias.
PLAYBOY - Que fantasias? Contardo - Ah, de qualquer tipo. São bastante variadas, embora possam ser reduzidas a um catálogo de tipos. Sexo sem fantasia não existe. Os animais têm um estímulo sexual que é diretamente ligado à procriação, mas o homem não. A nossa sexualidade não tem nada de “natural”. Ela é estimulada por fantasias. O sexo se cultiva. É importante que o casal cultive suas fantasias sexuais. É importante pensar em sexo fora do momento em que se chega à cama.
PLAYBOY - Nesse sentido, os homens são mais sexuais que as mulheres? Contardo - Tem um pouco essa ideologia de que as mulheres são mais a favor do amor e os homens mais a favor do sexo. Não é bem assim. As mulheres são muito mais capazes de viver aventuras sexuais do que os homens gostam de imaginar. É muito freqüente, quando acontecem aventuras desse tipo, que o homem não largue do pé dessa mulher. Os homens se apaixonam com muita facilidade, são grandes amantes. Os homens acreditam muito mais na perfeição que as mulheres. As mulheres são mais realistas e, por isso, mais inteligentes. Por outro lado, elas têm uma tendência muito maior à erotomania, a convicção inabalável de que são amadas pelo parceiro.
PLAYBOY - O amor existe? Contardo - Existe. Mas não como pensamos. Amar é imaginar que a outra pessoa tenha as qualidades que, para nós, deveria ter a pessoa por quem gostaríamos de ser amados. É complicado. “Eu amo fulana” significa que eu idealizo fulana como a pessoa por quem eu gostaria de ser amado. O amor é sempre uma forma de idealização. É por isso que o amor gosta de ser recíproco. Essa é a definição clínica do amor.
PLAYBOY - Então por que achamos que o sexo fica melhor quando estamos amando? Contardo - O sexo é sempre mais interessante entre pessoas que têm uma história. A qualidade das transas, se é que isso pode ser avaliado, aumenta quanto mais um casal se conhece. O sexo se aprimora não tanto porque descobrimos os recantos do corpo do outro que precisam ser estimulados mas porque as pessoas se soltam mais. A repetição e a familiaridade permitem que tenham acesso às fantasias um do outro. Isso se torna uma descoberta de coisas que podem fazer juntos. Não são necessariamente coisas extravagantes. Não precisa ter a fantasia de transar com o outro vestido de freira pendurado pelos pés numa piscina [risos]. Mas precisa descobrir a fantasia do outro, que ele descubra a nossa e que essas coisas se misturem. Isso leva tempo.
PLAYBOY - A pornografia é boa nesse sentido? Contardo - Eu aprendi bastante com filmes pornográficos. Eu tinha um primo, o Giancarlo, que foi de muita importância na minha educação “sentimental” [risos]. Ele tinha uma enorme coleção de filmes pornográficos e me dava acesso tácito a eles. Eu achei aquilo muito interessante. Eu descobri muito mais do que se tivesse esperado por alguém para me ensinar e tenho certeza de que a experiência não me arruinou. A pornografia pode funcionar como uma janela para o desenvolvimento das próprias fantasias sexuais, o que é positivo. Se meu filho de 13 anos tivesse que ver Clube da Luta ou Garganta Profunda, preferiria que ele visse Garganta Profunda.
PLAYBOY - Você acha que deveríamos censurar menos a pornografia? Contardo - Não necessariamente. Acho que deveríamos censurar mais a violência. Quanto à pornografia, acho que as coisas estão bem. O acesso ao sexo é muito mais interessante quando ele se dá às margens da autoridade do que com autorização. Tem muitas coisas na vida que precisamos deixar num espaço cinza. |
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Texto por partes |
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> Sobre sexo, amor e pornografia
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Entrevista |