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Contardo Calligaris |
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PLAYBOY - Em suas colunas, você deixa transparecer uma admiração maior pela cultura americana do que pela européia. Isso é surpreendente para nós, brasileiros. Contardo - Para mim, antes de mais nada, os Estados Unidos são o país que ajudou a eliminar o fascismo italiano. Esse ponto de vista já me coloca numa posição diferente da maioria dos brasileiros. Eu acho que os europeus são muito mais colonialistas do que eles ou os brasileiros imaginam. Cuidado com o paternalismo europeu. Eles vão gostar do Brasil enquanto continuarmos sendo bons selvagens. Mas as coisas vão mudar no momento em que tivermos a pretensão de competir com eles como iguais. A Europa inventou o colonialismo, não os Estados Unidos.
PLAYBOY - Atualmente você vive entre Brasil e Estados Unidos? Contardo - Não. Eu cansei de viajar e, desde fevereiro deste ano, estou em São Paulo definitivamente. As viagens começaram porque, em 1994, fui convidado para ensinar numa faculdade lá dos Estados Unidos. Achamos que seria uma boa experiência e fomos. As coisas foram acontecendo e, o que era para ser uma temporada, acabou durando dez anos. Mas durante todo esse tempo eu vinha para o Brasil por pelo menos dez dias por mês.
PLAYBOY - Como começou a escrever a coluna na Folha de S.Paulo? Contardo - Comecei a escrever para a Folha em 1992 depois que saiu o meu livro Hello Brasil! Fui convidado para algumas colaborações e logo estava escrevendo uma coluna quinzenal para o caderno Mais! Em 1999, o Otávio [Frias Filho, diretor de redação da Folha de S.Paulo] me convidou para escrever uma coluna semanal para a Folha Ilustrada.
PLAYBOY - Nunca falta assunto? Contardo - É um esforço bastante notável. O tema é aberto e isso acaba criando um estado de espírito permanente, no qual você vê a realidade pelo filtro da coluna da semana que vem. Você encara a vida como se qualquer experiência — ir ao cinema, encontrar uma pessoa, ver uma exposição, presenciar alguma coisa e mesmo ler o jornal — pudesse valer a pena ser contada aos outros. Isso intensifica o cotidiano e é muito legal, mas ocupa muito. A coluna está sempre presente, mas não é de opinião. Acho que escrever suas opiniões e convidar os outros a aderirem a elas é uma coisa extremamente vulgar.
PLAYBOY - Por que vulgar? Contardo - Para mim, a vulgaridade acontece quando a vontade de concordar com o grupo passa por cima do que você é capaz de sentir e pensar. Por exemplo, um grupo de homens comentando sobre uma mulher é vulgar, mesmo que os comentários sejam maravilhosos. Eles criam consenso em torno de opiniões que não expressam o que a mulher inspirou em cada um deles e, quando fazem isso, algo da liberdade individual de cada um se perde. Por isso não escrevo uma coluna de opinião.
PLAYBOY - Então você escreve uma coluna de quê? Contardo - O que me interessa é desmanchar os acontecimentos para revelar os mecanismos internos que nos fazem sentir ou pensar de uma maneira ou de outra. Refletir sobre nossas motivações amplia nossa liberdade de pensar diferente, amplia nossa consciência.
PLAYBOY - Como assim? Contardo - Espero tocar os leitores. Estimulá-los a melhorar a qualidade da sua experiência de vida. Melhorar a qualidade parece uma frase babaca, mas o que quero dizer é que cada um pense e reflita mais e, com isso, tenha uma experiência maior, mais intensa, da vida.
PLAYBOY - A coluna tem a pretensão de ser um diálogo psicanalítico? Contardo - Bom, inspirar a reflexão sobre si próprio é certamente um propósito da psicanálise. E eu sou psicólogo, o que conta na minha visão do mundo. Por exemplo, um dos temas recorrentes da minha coluna é como aquilo que nos indigna está presente em nós. Ou seja, se a corrupção nos indigna, é porque, no fundo, achamos que somos corruptíveis, mas não estamos a fim de ver isso em nós mesmos. Isso é uma maneira psicanalítica de pensar. Mas, quando você aplica psicologia aos acontecimentos, à arte, à mídia, enfim, à sociedade, como tento fazer na minha coluna, vira antropologia.
PLAYBOY - Antropologia? Contardo - Sim, mas no sentido de ser antropólogo da gente, da nossa sociedade, não de uma tribo da Polinésia. Boa parte do nosso comportamento, das nossas emoções e das nossas escolhas amorosas é ditada e delimitada pelo fato de pertencermos a uma cultura e que essa cultura tem regras bastante definidas. Por exemplo, a gente escolhe a pessoa com quem casa por amor. Essa é uma regra cultural, uma regra espantosamente exigente. Em outras culturas pode ser que a regra seja que você deve casar com a mulher que seus pais escolhem quando você nasce. E nós achamos isso fajuto e errado. Mas a nossa regra pode ser até pior, porque cria um monte de expectativas sobre companheirismo, felicidade sexual e assim por diante. Então, conseguir olhar para nós mesmos como parte de uma cultura que tem um enorme peso em quem somos é muito importante para nos entendermos.
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