Contardo Calligaris

PLAYBOY - Você cresceu na Milão arrasada pela Segunda Guerra Mundial. Tem lembranças desse período?

Contardo Calligaris - Tem coisas daquela época que me marcam profundamente até hoje. A cidade sofreu os efeitos de bombardeios. De cada três casas, uma era uma espécie de buraco de escombros. Lembro-me muito nitidamente de cartazes terrificantes, coloridos e gráficos que alertavam sobre bombas não explodidas que poderíamos encontrar nesses lugares. Além do ambiente sombrio, a época também me influenciou de outras maneiras. Meu pai havia participado da milícia antifascista durante a guerra e algo dessa experiência passou para mim. O exemplo do meu pai deixou claro que podemos ter que fazer escolhas radicais, por questão de princípio, que nos colocam, e às nossas famílias, em perigo e que, mesmo assim, não são negociáveis. O pós-guerra também fez com que a cultura americana invadisse a Itália e me influenciasse desde cedo. A vitrola lá de casa tocava In the Mood, de Glenn Miller, constantemente e eu, com 4 anos, decidi que queria aprender inglês. Ia todo dia a um convento de irmãs missionárias para fazer as aulas.

 

PLAYBOY - Você fugiu de casa aos 15 anos. Por quê?

Contardo - Eu fui uma criança demasiadamente bem-comportada, mas, quando chegou a hora de me comportar mal... [risos]. Aos 15 anos, fui à Inglaterra passar um verão para melhorar meu inglês e decidi não voltar para casa. Não era por desobediência, mas porque me apaixonei por uma jovem canadense. Aliás, estive no Canadá recentemente e tive a tentação de procurar o telefone dessa moça, que, a esta altura, deve ser uma senhora de cabelos brancos como eu. Quer dizer, eu não sou uma senhora... [risos]. Acabei desistindo da idéia. Mas, enfim, fiquei em Londres e meus pais cortaram relações achando que eu voltaria por necessidade. Mas eu só voltei quando ela voltou para o Canadá e eu já não tinha mais motivo para ficar.

 

PLAYBOY - Como você se sustentava?

Contardo - Vivi a duras penas. De vez em quando, minha avó me mandava um envelope com 20 ou 30 mil liras, mas que não dava para nada. Então trabalhei. Vendi pulôveres numa loja, lavei pratos num restaurante e, depois, trabalhei na rua convencendo turistas italianos e franceses a entrarem numa boate de strip-tease do Soho. Uma das atrações era um número chamado Sansão e Dalila e, certa noite, o Sansão faltou. O dono me pediu para substituir o Sansão e era um salário melhor do que ganhava chamando turistas, então, durante um período, eu fui Sansão [risos]. Esse foi um grande momento da minha experiência londrina.

 

PLAYBOY - O que aconteceu quando você voltou?

Contardo - Fui para um internato católico. Eu estava aterrorizado, mas, devo dizer, foi muito menos opressivo do que eu imaginava que seria. Hoje, tenho boas memórias e enorme gratidão pelo capelão do colégio. Eu externava a ele todas as minhas dúvidas sobre a religião e, inclusive, os motivos pelos quais eu não comungava. Ele me disse que isso não tinha importância nenhuma, que era irrelevante se eu saísse do colégio acreditando em Deus ou não. O importante era que eu fosse uma pessoa do bem.

 

PLAYBOY - E depois?

Contardo - Fui para a universidade em Milão. Fazia ciências políticas. Também comecei a trabalhar como fotógrafo e traduzindo romances policiais do inglês para o italiano. Fotografava de tudo. Era 1967 e não faltavam temas de interesse nas ruas. Fotografava também objetos. Foi nessa época que conheci a minha primeira mulher. Ela era atriz americana e estava em Roma para fazer alguns filmes. Depois, ela foi para Milão e se tornou modelo. Eu a fotografava. Fotografava outros modelos também. Vendia algumas fotos e também meus talentos de câmera escura. Mas minha relação com a fotografia acabou quando fui para a Índia e o Nepal.

 

PLAYBOY - Por quê?

Contardo - Ia fazer fotos lá para a editora De Agostini. Na primeira vez em que saí do hotel e pus os pés na rua de Bombaim, uma menina pobre se agarrou à minha perna e colocou a cabeça no meu pé para pedir esmola. Esse momento durou uma eternidade pra mim e eu fiquei muito mal. Com isso, me dei conta de que não ia conseguir encontrar uma posição subjetiva que me permitisse fotografar a miséria. Eu não seria um bom fotógrafo de reportagem. Então, quando voltei, decidi levar a sério a faculdade. Saí de Milão e fui para Genebra. Nessa época, eu viajava bastante para os Estados Unidos por causa da minha mulher e, também, entre Genebra, Paris e Milão. Eu estava muito interessado no que acontecia na Europa, em termos de movimentos políticos, mas também muito ligado na contracultura americana, na qual a revolta era mais social e pessoal.

 

PLAYBOY - O que você fazia em Genebra?

Contardo - Eu fiz duas faculdades: letras e filosofia e, ao mesmo tempo, epistemologia. Epistemologia era algo entre a faculdade de psicologia, onde Piaget ainda ensinava, e o departamento de filosofia.

 

PLAYBOY - Foi daí que surgiu seu interesse por psicologia?

Contardo - Essa história é meio estranha. Estava adorando a faculdade, mas eu estava muito mal. A manifestação concreta disso é que eu tinha crises de angústia. Talvez pudesse continuar tomando codeína pelo resto da vida, mas não me parecia uma escolha saudável. Então, decidi fazer análise. Eu já conhecia um pouco de psicanálise, já tinha lido Freud e comecei a me interessar. Acabei indo para Paris fazer análise. Passava três dias por semana em Paris e o restante em Genebra. Durante esse tempo, tive uma cadela que foi minha fiel companheira. Ela se chamava Merveille e viajava comigo no trem, ia caçar comigo...

 

PLAYBOY - Caçar?

Contardo - Sim, eu caçava. Comecei muito cedo. É uma tradição no norte da Itália. Caçava o que se caça nas planícies ao redor de Milão: faisão, pato-selvagem, lebre, veado... Continuo tendo gosto pela experiência. Sair numa manhã de outono, às 5 ou 6 da manhã, pela várzea com o meu cachorro continua sendo uma das imagens de felicidade na minha cabeça. Mas hoje não consigo mais atirar em mamífero. Ave tudo bem, ave não é “gente” [risos].

 

PLAYBOY - Como passou de paciente a terapeuta?

Contardo - Eu decidi que a psicanálise me interessava demais, deixei Genebra e me instalei em Paris. Um ano depois, em 1975, comecei a atender, me tornei membro da Escola Freudiana de Paris e fui convidado a ensinar no departamento de psicanálise da Universidade de Paris. Então, me tornei psicanalista na França e fiquei lá muito anos.

 

PLAYBOY - E como você veio parar no Brasil?

Contardo - Em 1985, eu tinha escrito um livro sobre psicanálise que ia ser publicado no Brasil e vim para uma série de conferências. Conheci minha mulher atual — que é gaúcha e também psicanalista — durante uma palestra em Porto Alegre. Reparei naquela figura que sentava na primeira ou segunda fileira e um colega me contou seu nome. Depois, ela pediu que eu fizesse uma dedicatória em sua cópia do livro e, quando ela ia me falar seu nome, eu disse: “Já sei”. Aí, fiz uma dedicatória um pouquinho fora do normal e começamos a conversar. Depois disso, passei a vir sempre para o Brasil. Em 1988, o ritmo das viagens entre Europa e Brasil se tornou insuportável e tive que fazer uma escolha. E tive um feeling que seria mais interessante vir para cá. É uma escolha que não lamento de jeito nenhum. Me sinto mais em casa nas Américas do que na Europa.

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Veículo:

Playboy

 

Ediçâo:

No. 347

Pág. 82 - 87

 

Data:

08/2003

Texto por partes

1a Publicação

Entrevista